Eu tenho 24 anos, foi a terceira vez que votei para presidente, foi o primeiro ano que acordei para a política.

A primeira vez foi em 2010, quando Dilma Rousseff se elegeu com 56,05% dos votos, e eu estava ali no meio. Eu não sabia quem ela era, só sabia que ela era mulher, e eu estava sendo resistência sem nem saber o que era isso.

A segunda vez foi em 2014, Dilma se reelegeu. Nesse ano eu flertei com Luciana Genro do PSOL e até cogitei não votar na, na época, atual presidenta. Em 2014 eu tentei entender a política, eu li propostas, mas era tudo muito confuso e optei pelo mais fácil, votar em quem já estava no poder, continuei votando PT. E continuei sendo resistência sem saber. Eu era a pessoa que esbravejava que o voto era secreto, que ficava bem no meio da tabela com medo de ir para qualquer lado, tudo parecia extremo demais. Eu pensava só em mim.

Eu não gritei quando o Gigante acordou e não fui para as ruas pelos 0,20 centavos, mas então veio o golpe — Michel Temer assumiu a presidência dia 12 de maio de 2016. Ainda assim tinha a ver comigo. Como assim a presidenta que eu elegi foi retirada assim? Eu era manifestante de internet. Indignada, mas calada. Acompanhava do canto, ainda ali no meio, sem querer cair para nenhum dos lados.

“Me dei conta de que precisava acordar para a política um pouco depois das eleições de 2014. No primeiro turno eu assisti alguns debates e escolhi a Luciana Genro como melhor opção, no segundo turno eu votei nulo, sem saber muito o motivo.
Em 2016 foi uma reviravolta e o impeachment da Dilma me fez perceber o quão importante era participar e entender melhor a política e teve um momento na votação do impeachment que me fez até chorar de desespero, esse momento foi o qual o Bolsonaro homenageou o Ustra, depois disso eu comecei a pesquisar mais sobre política, fiquei realmente mais atenta às coisas que acontecem à nossa volta. Comecei então a quebrar esse discurso de que “política não se discute” e comecei a militar com as pessoas ao meu redor e com quem entendia um pouco mais do assunto.
Esse ano eu escolhi cada um dos meus candidatos, não anulei nenhum e nem votei em branco, e ajudei amigos e familiares a fazer o mesmo. A política interfere diretamente na nossa vida e por isso eu acordei, e hoje luto pela democracia.”

— Relato autorizado por Jessica Meiry

Carlos Alberto Brilhante Ustra

Ou simplesmente “Ustra”.

Meu primeiro contato com esse nome não foi com Jair Bolsonaro o homenageando na câmara, foi em um livro de fantasia de Renata Ventura.

A história de “A Arma Escarlate”, e logo após, sua continuação, “A Comissão Chapeleira”, trazem um Brasil real, porém permeado pela magia, mas mesmo nesse mundo mágico nossos defeitos como sociedade estão presentes ali e um deles foi o Golpe Militar de 1964 no segundo livro.

Quando fiquei sabendo da notícia onde Jair homenageava esse torturador e que Dilma havia sido presa na época da ditadura, eu só liguei os pontos, e se eu não olhava para Jair Messias Bolsonaro pois achava que ele não tinha chances de ser o próximo presidente, depois desse dia meus olhos ficaram super atentos à qualquer um de seus movimentos e palavras, pronta para defender quem quer que ele ou seus seguidores estivessem atacando. Finalmente não era mais sobre mim, era sobre todos.

2018

E então chegaram as eleições 2018 e eu conheci uma tal de Manuela. De cara fiquei assustada com a bandeira vermelha do PCdoB, fiquei com o pé bem lá atrás olhando para o símbolo da União Soviética e comunismo parecia uma palavra grande e feia, mas mesmo com essas amarras decidi ouvir o que Manuela tinha à falar. Decidi por ela ser mulher, mas não só por isso dessa vez. Decidi pois vi as notícias onde ela era interrompida e fiquei com raiva, não queriam deixa-la falar e por isso mesmo eu queria ouvir. E ela virou minha candidata imediatamente.

Foi quando os muros do voto secreto caíram e eu dei meu primeiro passo à esquerda. Com Ela conheci a esquerda do jeito que a esquerda é, não como era pintada em comparação aos outros países governados pela esquerda. Eu que sempre fui curiosa para tentar entender as coisas, encontrei alguém que pudesse me explicar de um jeito simples e mergulhei.

Esse ano é a terceira vez que eu voto e não achei que fosse virar militante, que fosse levantar bandeira, que fosse entender a política, que fosse lutar, que fosse para a guerrilha, que fosse parar no fotojornalismo, nada disso, mas acordei e tenho muito que aprender para aprender a dialogar com quem estava como eu, com os olhos vendados. Eu achava resistência coisa de filme, mas percebi que nós somos a resistência, o tempo todo. Somos a resistência quando recebemos uma bolsa do ProUni, quando pegamos o diploma, quando simplesmente saímos na rua para viver, o Brasil precisa que continuemos sendo depois de amanhã.

Eu sou mulher, negra, LGBT+ e bolsista. Faço parte de todas as minorias que a oposição quer destruir, e já começou a destruir. Manuela sempre foi minha opção, não o PT. Meu partido, veja só, descobri ser o PSOL e foi neles que depositei metade dos meus votos no primeiro turno, eu acordei e acordei de esquerda. Hoje eu visto o casaco vermelho sem medo nenhum.

Era o que eu gostaria de dizer.

Era pois hoje saem mais fascistas do que homossexuais do armário, tenho medo de usar meu tênis favorito porque ele é vermelho, tenho medo de usar um adesivo com o número do meu candidato, tenho medo de falar sobre política em qualquer lugar, mas estou lutando para superar esse medo pois não podemos nos dar ao luxo de senti-lo, principalmente nós que acabamos de acordar, vidas estão em jogo. A democracia esta em jogo.

Democracia

Dez letras. Cinco sílabas. Uma jovem mulher que mal passou dos 30. Ela não pode morrer assim, de morte morrida. Então precisamos resistir, juntas e juntos, porque só a esperança é a única coisa mais forte do que o medo, e enquanto uma formiga tiver forças para ficar de pé, outras se sentirão inspiradas, e juntas vamos vencer. E eu quero estar aqui para contar que vencemos. Juntos.

“A revolução é que nem uma bicicleta, se as rodas não giram, ela cai.” — Persépolis

Continuemos pedalando, camaradas.

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