Eu parei de escrever porque escrever diários nesse momento parece banal demais. Ao mesmo tempo tenho tanto para falar e tantos lugares para usar como microfone que não sei que rumo tomar. Estamos em um momento péssimo onde estou falando sobre isso e ao mesmo tempo cansada de falar sobre isso, mas não paro. Ao mesmo tempo me sinto calada. Eu parei de escrever e também parei de ler. Ler no geral. Blogs, livros. É difícil colocar essa loucura em palavras. Quero falar sobre coisas boas aqui. Ao mesmo tempo parece uma desculpa para eu não estar falando.

Fazem dois meses desde os "diários ansiosos" e desculpa se preocupei alguém, não é mais como  2010, hoje eu não escrevo mais para as paredes, eu sei que vocês estão aí. Todos os dias eu queria sentar e escrever, até que chegou o dia em que eu não podia mais fingir que gostaria de escrever. Não sobre estar mal, sobre ansiedade, depressão ou remédios controlados. Então me guardei. Se hoje escrevo é porque finalmente enxergo a luz. Não como um sol brilhante, mas um fecho de lanterna. Têm sete rascunhos inacabados e não quero que esse seja o oitavo. Têm vinte dias que estou afastada do trabalho, sai de casa seis dias.

Foi quase mais um rascunho inacabado. Foi uma semana para voltar a escrever. Aos poucos vou reaprendo a juntar as letras e formar palavras. Esses estão sendo os sessenta dias mais loucos da minha vida onde tudo tem acontecido ao mesmo tempo, e com tudo digo contados, oportunidades e novidades.

Antes eu achava que a escrita era uma coisa para mim, mas percebi que pode ser para os outros. Não no sentido de se tornar popular, mas sim de dar voz a quem não pode dizer ou não sabe como dizer o que sente. É claro que me sinto meio ridícula de me achar a voz de alguém, mas foi o feedback que recebi quando resolvi contar a minha história como operadora de call center.

Acho que devo um pouco à terapia que me fez acreditar que poderia usar minhas mãos para me expressar, por mais que eu já acreditasse, o ser humano sempre precisa daquele empurrãozinho, de alguém batendo a varinha mágica do reconhecimento, alguém te dando o diploma de escritora, sendo que é você mesma que tem de bater com a varinha mágica, como já disse Amanda Palmer. Foi assim com a fotografia e está sendo assim com a escrita.

Eu sempre disse que minha estação do ano favorita era o inverno, mas acho que me enganei a vida toda. Inverno é inverso ao que eu sinto quando entra a primavera. Tem o sol brando, passarinhos cantando, tudo cheirando casa. E vem as flores, se abrindo, brotando...

No meio do caminho teve um clube do livro sobre "Dias de Abandono" onde percebi que eu me abandonei, e depois abandonei o livro no café. Foram dez dias inteiros deixando a carcaça engrossar e me estranhando, onde até cogitei cortar o cabelo para me livrar daquele peso, daquele empecilho, aí lavei, penteei, me reencontrei e impedi um erro.

Minhas olheiras aumentaram, mas nunca estive tão descansada. Flertando com o desemprego, faculdade destrancada, oficialmente bolsista do ProUni, oficialmente no último ano da faculdade - o TCC foi liberado. Em 2020 eu tô pulando Carnaval para comemorar a formatura. São tempos loucos, e eu vou vivendo aos poucos, um dia de cada vez.

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