São seres humanos do outro lado. Gente que manda mensagem perguntando sobre produto às 21:40. Comparação. Por que X, Y, Z conseguem trabalhar tanto? Estão mesmo trabalhando? Sentir que não se encaixa no mercado e se obrigar a se encaixar. Estresse desnecessário. Há muito tempo eu não me sentia ansiosa, e é verdade. É difícil perceber com o que exatamente eu estou ansiosa no momento, mas é dinheiro. Ou mais embaixo, me sentir um fracasso.

Acho que desde setembro eu venho fazendo um esforço enorme para conquistar tudo que eu quero, mas nem sempre o dinheiro vem junto, nem quando teoricamente ele deveria estar aqui. Eu estou  me desdobrando em tantas coisas que não sei mais direito quem sou eu. Fotógrafa? Revendedora eudora? Artista? Escritora? E no meio disso eu tento cuidar da minha saúde porque o que eu achava que ia acontecer, aconteceu: a ioga não continuou, então busquei uma academia - de dança - e é maravilhoso, mas sei lá se vou continuar porque precisa de dinheiro. Surgiu a oportunidade de fazer as aulas de francês mais baratas do mundo, e talvez eu não vá fazer pelo dinheiro.

Eu trabalho em uma empresa privada que me fez o desfavor que não me explicar como um afastamento funcionava e agora eu estou nadando em juros e promessas que não vou poder cumprir antes do dia 15. Pessoas normalmente aceitam. Empresas não.

Então no meio do caminho tem gente falando de meritocracia, do PT, de por que defender os direitos trabalhistas, enquanto do lado daqui a gente tá sangrando pra não ser mais abusado do que já é no trabalho. A gente tenta sobreviver todos os dias nesse sistema maluco que é o capitalismo, mas não dá. Eu precisava de uma cadeira para escrever sem precisar ficar alongando as minhas costas no meio do caminho, mas é escolher entre uma cadeira e o desodorante. A cadeira e sombra para as sobrancelhas porque a minha acabou. Não é porque eu quero, é porque eu preciso. Cada um tem suas prioridades.

A cada dia que passa eu entendo um pouco dos meus privilégios de poder pagar uma faculdade, mesmo que atrasada. Poder pagar um  curso de francês, mesmo que eu não saiba se isso vai realmente acontecer. De ter os pais juntos. De ter um teto. Mas sinceramente, quando eu olho pra babaca de internet que fica perguntando porque defender os direitos trabalhistas eu não consigo ver o que eu tenho como privilégio. Vejo como qualquer coisa que eu consegui no meio do caminho, mas menos privilégio. Sinceramente eu preferiria estar na federal do que ter ganhado a bolsa de 50% do ProUni (que eu só ganhei no último ano da faculdade).

Alguns privilégios são maiores que outros?

Eu tento pensar que a culpa não é minha do público da feira ser o homem e mulher brancos cis moradores do fundinho, mas essa galera não precisa se preocupar com qual boleto pagar amanhã. E eu sei que estou julgando o livro pela capa, mas a gente sabe do que eu tô falando quando falo de fundinho.

Eu só estou cansada dessa gangue dos uniformes feios. Parece ex que não quer sair do seu pé. E ao mesmo tempo a pressão externa de “não poder” pedir conta. E distribuir currículos com “2013-presente” e ter que explicar que “kkk, pois é eu ainda trabalho, mas estou afastada. por que? ah, problemas psicológicos que estão sendo tratados (essa última parte minha psicóloga pediu para frisar.)”. Eu não gosto de coisas que geram constrangimento, sinceramente, não sei como consegui sobreviver a uma aula de jazz. Eu sou controladora. E tudo nesses quatro meses tem ficado completamente fora de controle. Eu não aguento mais dividir meu quarto com as minhas ideias. Quando o mesa está organizada o chão está um caos, e vice-versa. O quarto-ateliê-estúdio está a cada dia mais parecido com a minha cabeça. Não tem como ter / ser tudo. Mas não é como se fossem coisas muito diferentes. Desde julho minha vida está descarrilada e por mais que eu tente curtir cada momento, às vezes eu só queria que as coisas voltassem para os eixos, e eu acho que o nome do eixo é estabilidade financeira. Ou talvez eu só precise esperar mais um pouco para me acostumar com a incerteza.

Salvo algumas vitórias pessoais no meio do caminho como o estigma da legging na rua ou, melhor! o look completo de academia na rua. Que teoricamente não era um look de academia, mas era legging com regata. Dias desses postei no país Facebook que meu medo de fazer academia era de começar a andar de legging no ônibus e me vissem com aquelas roupas feias na rua, mas aí descobri roupas de academia com estampas legais. Vivendo e aprendendo.

Aparentemente meu maiores e melhores textos vem de surtos e eu não queria que fosse assim, mas é isso. Amanhã eu lido com os boletos, por hoje, chá gelado e Dance Academy pra terminar a noite.

Deixe um comentário